quinta-feira, 12 de maio de 2011

E-MAIL SOBRE MENSAGEM DE CHICO XAVIER

w.,
recebi esta mensagem com umas palavras de chico xavier... gosto sempre de ler essas coisas...  esses  pontos de vista. quem é que sabe, né?
bj
*************************

amada, bom dia...

é assim....

essas mensagens são como minhas poesias...parecem
sempre estar faltando alguma coisa....

que mal há em alguém querer ter olhos azuis, ou ter um
prato de comida melhor?

não sei... só por que alguém não tem olhos, ou não tem
comida?

é um raciocínio lógico? não sei....

agrada a todo mundo que lê e enche de culpa aqueles que
têm sonhos....

não acho justo não poder sonhar só porque algumas pessoas
são privadas de algumas coisas.

que culpa tenho eu de alguém não enxergar ou não ter pés
ou não ter o que comer?

a vida não é assim? sempre não foi assim?

eu não sei...

já te falei uma vez que não sou muito chegado a pregações,
a ensinamentos... não gosto muito de padres,
pastores...normalmente falam uma coisa e vivem outra...

embora que com Chico foi diferente....

obrigado, amada...

bjos.w

************************************

w.,

é... acho q ce tem razão. é esse negócio da cultura judaico-cristã que encheu a gente de culpas, embora nós dois (principalmente), nem tenhamos religião definida.

me parece que foi de wood allen que ouvi  uma fala sobre esse negócio da culpa, quando ele contava uma piadinha mostrando a diferença entre a mãe italiana e a mãe judia.

dizia a italiana para o filho pequeno: se você não comer, eu TE mato. dizia a judia para o filho pequeno: se você não comer, eu ME mato. rsrsrs. e olhe que o cineasta em questão é judeu novaiorquino (e um grande gozador!).

na verdade eu nem to acreditando que o chico xavier tenha jogado uma culpa destas sobre nossa mortal cabeça. de repente psicografaram errado. eu é que não vou me matar por uns terem olhos e outros não porque o máximo que posso fazer é oferecer meu braço pra atravessar a rua... de qualquer forma eu já doei meus órgãos, o que já é uma forma de ajudar e não me sentir  culpada por ter um par de olhos grandes e verdes. de repente minhas córneas servirão também a outros quando eu partir, daqui a cem anos, para as estrelas.

no mais a mais... sigamos vivendo sem grandes preocupações esotéricas ou religiosas, sei lá!... acho mesmo que o importante é a gente tentar ser bom e decente sempre.

beijinhos




PASSADO E PRESENTE NAS MENSAGENS

w.,
puxa, guardei umas mensagens suas de trocentos anos!  to reorganizando os arquivos, apagando e somente deixando os seus poemas num arquivo separado.
nossa, to pensando numa mensagem q vc me mandou, no passado, dizendo que estava doente, internado por causa daqueles problemas tristes e do tamanho das dores que sentia, sem saber se sobreviveria. lembra?

w., sabe de uma coisa? to feliz pq vc ta vivo!!! eu devo ter mérito com o pessoal lá do andar de cima pq deixaram meu amigo aqui por mais tempo só pra eu curtir os papos com ele. quanto aos seus méritos, tenho certeza de q vc tem um monte de pontos no caderninho de deus. vc sobreviveu, menino, pra ficar mais tempo nesse lugar lindo onde vivemos.
mas to achando vc mto caladinho ultimamente (ou eu to mto falante?) - pode ser a pílula da emília fazendo efeito em mim.
bjbjbj
 
Oi, Amada, boa noite, querida...

então, esse email é tão velho, não????? desse problema fiquei bom e nunca mais tive....
puxa vida...

será que tenho pontos positivos com Deus?
eu sempre faço exame de consciência, e nele vejo que na balança do juízo divino pende mais as coisas ruins que fiz do que as boas.
tomara que vc tenha razão porque penso que logo estarei lá prestando contas..
enfim...

eu acho que são as duas coisas amadas acontecendo, eu estou caladinho e você falante..rssssss

pois é...

segunda feira foi o aniversário de minha irmã caçula, e a pé fui à casa dela dar um abraço.
na volta vim pensando, pensando, pensando....
e escrevi esta poesia, até porque tenho sonhado muito com meus pais....
sabe-se lá  por quê... acho que é vontade imensa de ser recebido por eles, lá do outro lado...
olhe ela aí...
MEU PAI, MEU POETA!
Oswaldo Antônio Begiato

Meu pai foi poeta sem nunca ter escrito um único verso.
Poeta do amor mais puro e profundo que já vi.

No dia em que completei trinta anos
mandou buscar para minha mãe a orquídea mais bonita de Jundiaí.
O cartão dizia que há trinta anos ela o tinha feito, pela primeira vez,
o homem mais feliz do mundo
(sou o primeiro filho deles).
Minha mãe disse com todo encanto do mundo:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Minha irmã caçula, depois de onze outros partos de minha mãe,
nasceu no dia nove de maio de mil novecentos e setenta e um
(dia das Mães, naquele ano).

Meu pai deu a ela o mesmo nome de minha mãe Regina – Rainha.
Quando chegou com a certidão de nascimento em casa
minha mãe com o mesmo encanto de sempre disse:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Quando estou muito triste gosto de imaginar
o quanto de poesia ele fez entre o primogênito e a caçula deles. E rio. Apenas rio.
Com eles aprendi que poetas são bobos.

(Jundiaí, em 9 de maio de 2011)
quando eu tiver inspiração vou lá no blog escrever.
não espere isso, vai escrevendo quando lhe der na telha, não me incomodo...
se cuide, amada...bjos.w


 
 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Flor de Maio

amada,

essa é na verdade o embrião da poesia menina que eu iria terminar pouco tempo depois.
nada mais oportuno do que publicar ela aqui de novo, já que estamos no mês de maio, e todos as flores de maio se abrem em rosa, branco, vermelho.
isso me dá uma certa tristeza porque elas se abrem tão coloridas e somente meu coração não se abre.
mantém-se blindado ao amor.
meu coração é mesmo tosco.

ei-la já mulher feita:


FLOR-DE-MAIO

Na minha terra
onde, em dezembro,
as uvas se despertam princesas,
amanhadas que são pelas manhãs,
o céu de maio,
embriagado que é pelas transparências,
volta a ser príncipe de um reino
imaculadamente azul.

Todos meus tormentos e turbilhões
transmudam-se em contemplações
e olhares serenos,
na direção sul;
céu de brigadeiro
toma-me nos meus infinitos,
por inteiro,
e me faz nascer asas
em  forma de triângulos escalenos.
Eu vôo. Vôo extasiado.

Coisa linda!
Coisa linda como lindas
são todas as coisas de maio;
especialmente a flor.

Jundiaí, em 2 de maio de 2.007.

POEMA DE OSWALDO BEGIATO

w.,

estava aqui arrumando os arquivos do computador. de repente eis o que encontrei vindo de você em 2007. continuo achando o poema lindo e, por ser mês de maio - coincidentemente -, publico aqui:

Nossa conversa pela manhã de maio me inspirou esta poesia...dê uma olhada e veja se tem alguma correção...obrigado...bjos.w.


FLOR DE MAIO

Por estas bandas,
onde ando amanhando
pela manhã
alguns canteiros,
o céu no mês de maio
é intensamente azul,
deixa meus turbilhões serenos,
na direção sul;
céu de brigadeiro
toma-me nos meus infinitos,
por inteiro,
e os faz triângulos escalenos.

Coisa linda!
Coisa linda como são lindas
todas as coisas de maio;
especialmente a flor.

 (2 de maio de 2007)

terça-feira, 3 de maio de 2011

A JUSTIÇA FOI FEITA. FOI?

w.,

estou aqui, ainda estupefata, com as comemorações da morte de bin. menino, como podemos ficar insensíveis ao que aconteceu e como aconteceu? ouvi o presidente obama falar na televisão que “a justiça foi feita”. ele disse isso com um ar de orgulho de canto de boca. claro que a tragédia daquele 11 de setembro foi chocante, assim com foi trágico o povo sendo soterrado no rio de janeiro com aquelas chuvas, mas a natureza não assassinou ninguém. na minha idéia de ignorante política nada justifica a detonação das torres gêmeas, assim como também chamar de justiça feita a morte do bin.

você pode até dizer que eu não tinha parentes (tecnicamente) nas torres explodidas, mas eu digo que não sou parente do povo que vem morrendo no oriente médio somente porque alguns precisam demonstrar poder. não tive parentes (também tecnicamente) soterrados nas enchentes, mortos pelos terremotos e tsunamis em qualquer parte do mundo, mas me entristeço com esses casos, principalmente quando vejo que nós, que nos dizemos evoluídos ou civilizados – sei lá! -, matamos por matar, pra mostrar que somos mais fortes politicamente; que nosso time merece que acabemos com a vida do outro somente porque ganhamos ou perdemos no jogo de futebol. creio que todos sempre perdemos nesses casos, porém não sabemos que perdemos.

dizer que a justiça foi feita alivia a nossa dor por perdermos entes queridos, entretanto não traz de volta os mortos (na verdade eles voltarão de outra forma, queiramos ou não). quando bush disse “não importa quanto tempo leve a justiça será feita”, na minha opinião ele dizia que aguardássemos a vingança. vingança, no meu parco entendimento de certas coisas, é como a hidra de lerna: sempre nascerá mais uma serpente; sempre nascerá mais um vingador. bom, podemos chamar hércules de volta... de repente.

vi pela tv os jovens nos estados unidos gritando usa! usa! usa! como se o país tivesse realizado um grande feito humanitário. tão jovens, tão equivocados, tão incentivados a serem as serpentes da hidra!...

se alguém ler esse texto, além de você, quero que entenda que não estou sendo a favor de bin ou de obama ou de outros que agem na certeza de que a justiça tem que conseguida dessa forma. você já conhece o meu ponto de vista. só lhe escrevi mesmo pra dizer que, embora já velha, ainda não consegui entender como funciona nossa cabeça. de qualquer forma o "martir do momento está no paraíso com 72 virgens à beira de um rio abundante em leite e mel, mas a gente continua aqui, no andar de baixo, sendo violentado de todas as formas que se possa imaginar.

na minha terra dizem: cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. a gente deveria pensar bem nesse ditado porque a vingança gera mais violência e nós sabemos porque a história confirma isso. uma revanche, seja em qualquer nível e em qualquer lugar, deixa o mundo mais seguro? de repente somos muito novos e ainda não aprendemos.

bom, pelo menos a imprensa vai esquecer um pouco o casamento do filho da princesa e deixar o casal curtir a lua de mel em paz como outro casal qualquer.

bj

sábado, 30 de abril de 2011

MAHASAMADHI DE SATHYA SAI BABA

w.,

muitas pessoas visitavam Satya Sai Baba no seu ashram. algumas por devoção, outras por curiosidade em vê-lo materializar coisas que desejavam. um homem perguntou qual a diferença entre eles dois porque satya sai podia fazer “aquelas mágicas” e ele não. sai baba, com aquele sorriso sereno, sem nenhuma vaidade, respondeu: a diferença é que eu acredito que sou deus e você não.

essa historinha ficou ruminando na minha cabeça por muito tempo porque eu também ainda queria realizar coisas miraculosas. tempos depois, juntando as leituras que havia feito sobre este meu guru e histórias de outros meus – porque tenho muitos gurus, muitos mestres – entendi. mas não vou entrar em detalhes agora.

cantei num coral, regido pela maestrina, ishwari, e aprendi muitos mantras indianos e outros que repetimos todos os dias, horas, e minutos e nem sabemos que estamos repetindo mantras. um deles sai baba repetia e nos recomendava o mesmo. gayatri mantra:

                                    om bhur bhuvaha svaha          (ó deus da vida que trás felicidade)
                                    om tat savitur varenyam       (dá-nos a tua luz que destrói pecados)
                                    bargho devasya dhimahi        (que a tua divindade nos penetre)
                                    dhiyo yonah prachodayat      (e possa inspirar nossa mente)

então acordo hoje, domingo de páscoa, com a notícia do mahasamadhi - morte física de um mestre iluminado, de acordo com o hinduismo - de sathya sai baba. todos os dias são dias bonitos para viver ou morrer... daí não vou dizer que o guru escolheu um dia lindo para viajar para as estrelas somente porque nesse dia há um significado especial para judeus e cristãos (aliás nem sempre em datas coincidentes). outros escolhem se juntar, sem nenhum objetivo religioso, mas apenas para comemorar e bebemorar a companhia dos amigos num lindo dia qualquer.

mas eu não quero falar de religiões, apenas dizer que fui agraciada por conhecer sai baba, um mestre iluminado que pregou as mesmas coisas que tantos outros mestres, encarnados ou não, pregaram: sobre o amor incondicional, sobre o esforço para a reforma interior, a busca da santidade de cada um, da compreensão de que somos diferentes, mas apenas um, afinal todos - deuses e diabos - somos um, embora possamos escolher caminhos diferentes. o todo está em tudo! o inefável é invisível aos olhos da carne, mas é visível à inteligência e ao coração (hermes trismegisto), a propósito do que escrevi antes sobre a nossa unicidade.

desde todos os tempos os mestres vêm nos alertanto sobre a importância do amor, do perdão, da generosidade, da gratidão e outros sentimentos e atitudes relacionadas. quando falo de mestres, não me refiro àqueles a quem denominamos de santos (as convenções), mas de todos aqueles que plantam uma semente do bem em nosso coração e nos fazem ter a vontade de aguá-la para que ela crie força e sobreviva apesar de...

daí, w., eu pedir socorro à minha memória para registrar alguns pensamentos de mestres que inspiram e iluminam nossa mente sempre que queremos elevar o nosso padrão vibracional:

amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der e as vezes receber amor em troca. (c.lispector)

quando a gente ama, simplesmente ama; é impossível explicar. (o. montenegro)

só se vê bem com os olhos do coração. (exupery).

deus não lhe dá mais do que você pode carregar. (jesus).

a devoção, por si mesma, não é essencial. é o amor a verdade, a virtude, a ânsia de pregredir, de servir, de expandir seu coração, de envolver toda a humanidade em seu amor, de ver a todas as formas da consciência divina. (sathya sai baba).

professores, não acreditem que o serviço prestado às crianças é apenas para o bem delas. é também para o seu próprio bem. as crianças são lâmpadas que iluminam o caminho da nação. os professores podem transformar a nação se desempenharem adequadamente o seu papel. professores e alunos somente sentirão a verdadeira alegria quando se unirem através do amor que não exige retribuição. cumpram seus deveres com espírito de dedicação, amor e serviço, e sejam exemplos luminosos para o país e para o mundo. plantem no coração as sementes da verdade, não-violência, ação correta, paz e amor. e a colheita deve ser armazenada em seus corações e dividida com todos. (sathya sai baba).

a diferença entre amor e sexo? é possível fazer amor com todo mundo, mas não fazer sexo com todo o mundo. (swami tilak).

o senhor não daria banho em um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso. (teresa de calcutá).

não esqueça que você é feito de beleza e faz parte deste harmonioso e maravilhoso universo. você é vida! você é luz! pare um pouco e pense nisso. você será, queira ou não, o resultado de suas ações. existe uma vida linda te esperando. ame, porque a luz que te criou existe no teu coração. (nando cordel).

tens o direito de escolher o teu caminho, aquele que deves seguir. ao fazê-lo, repassa pela mente os objetivos que persegues, os recursos que se encontram à tua disposição íntima assinalando o estado evolutivo, a fim de teres condição de seguir. Se possível, opta pelos caminhos do coração. eles, certamente, levarão os teus anseios e a tua vida ao ponto de luz que brilha à frente esperando por ti. (joana de angelis/divaldo franco).

namastê para sai baba!

vou parando por aqui, mas deixando uma musiquinha de presente pra você, também meu mestre, e para o meu pai que, se estivesse aqui na terra, faria niver hoje, 24 de abril. engraçado... estamos sempre indo e vindo e coincidindo...
bj.

p.s. também quero agradecer ao meu aluno e professor - ao mesmo tempo porque, no meu entendimento, é assim que a vida funciona -, bruno bonela, que me ajudou a colocar a musiquinha com a imagem no youtube a fim de que pudéssemos postar aqui.







sábado, 12 de março de 2011

NOTÍCIA DE UM ROUBO

amada,

li essa notícia na internet e não resisti diante de tamanho romantismo dela.
oxalá todos os roubos fossem de gnomos.



NOTÍCIA DE UM ROUBO
Oswaldo Antônio Begiato

Um ladrão pulou o muro de uma casa na noite desta segunda-feira
e roubou três enfeites de jardim:
Um gnomo, um sapo e uma centopéia.

Segundo a polícia, há marcas de pés sujos nas paredes do local.

O ladrão de gnomo de jardim,
apesar de seus pés sujos,
 não foi encontrado pela polícia.

Isso é que é ter sorte na vida!


domingo, 6 de março de 2011

a tal poesia do cisne


amada,

fiquei todos esses dias pensando em tudo o que você escreveu.
e pensei, pensei, pensei...
e assim fiquei com a certeza absoluta de que todos nós somos uma espécie de Nina, de bailarinos que sonham um dia dançar o Cisne Negro.
se você soubesse, minha amiga, quantas vezes eu me mutilei e me mutilo nessa minha vida medíocre, na tentiva de ser um homem bom.
consigo?
consigo nada.
tudo é em vão. tudo!
sempre sou humilhado por uma coisinha que deixei de fazer, ou fiz mal, ou não devia ter feito, ou sei lá o quê.
sei que jamais conseguirei dançar o tal cisne, negro ou dourado ou ilimuminado ou morto ou vivo ou magro ou gordo ou bardo (bardo então nem pensar)...
estou desistindo de bailar e me farei silencioso como o lago sem o cisne, e negro como a noite sem a bailarina.
a vida não é fácil.
cada vez chego com mais convencimento à essa conclusão.
cada vez mais a morte me encanta.
parece ser mesmo, o que tão bem definiu Martin Luther King, o denominador comum de todos nós.

a poesia que me pediste.


sou a bailarina da noite escura
dançando no espelho liso de um lago
onde cisnes negros se entregam à morte
desesperadamente


sou a bailarina frágil
que queria ser doméstica
ou freira
ou feirante
ou médica
ou mestre
ou professora
ou prostituta

no entanto estou aqui
mutilando meus sonhos
rasgando minha pele
porque o cisne negro insiste em não morrer

um imenso abraço.w

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

CISNE NEGRO PARA W.

w.,


fui assistir ao filme cisne negro. como você sabe que eu sou, saí do cinema impressionada, não exatamente com a arte produzida pelo diretor, darren  aronofsky (nome que nem sei pronunciar), mas pelo sofrimento da bailarina, criatura frágil de personalidade por causa da mãe dominadora que fez da filha uma obcecada pela perfeição. nina (natalie portman).

se eu fosse fazer uma resenha técnica, o que não é o caso aqui, teria que começar relembrando do príncipe siegfried (do conto o lago dos cisnes – e de onde saiu a ideia para o filme em questão). quando o tal príncipe completaria a maioridade a mãe ofereceu uma festa, oportunidade para o tal siegfried escolher uma esposa entre as moçoilas conhecidas. sempre as mães metidas nesses arranjos e outros. No entanto vou ficar indo e vindo entre o lago dos cisnes e o cisne negro.
(imagem da internet)
bom, saí do filme pensando muito no problema da auto-mutilação, coisa que a gente mesmo faz a todo momento em nossa arte de viver. todo o suspense do filme é transportado da mente da nina para os nossos olhos quase assustados com a realidade psicológica da bailarina que tem todas as características necessárias  para dançar o cisne branco apenas (doçura, pureza, submissão, etc). assim como a mãe do siegfried, a mãe da nina também domina e, como uma carcereira, policia a filha em casa e fora de casa pelo  - vamos chamar de maldito – celular. na verdade a criatura deseja ardentemente ou raivosamente que a filha alcance o papel principal no balé. digo raivosamente porque ela mesma não conseguiu destaque na profissão, de também bailarina, por ter engravidado e deixado tudo para cuidar do bebê. aí se estabelece uma relação perigosa: a famosa relação de amor e ódio. de jogar a culpa dos “fracassos” no outro, fazendo deste seu eterno refém.

por que nina (no balé) e odette (princesa enfeitiçada e aprisionada por rothbart no conto lago dos cisnes) ficam fielmente submetidas aos aprisionadores? o príncipe também se deixa aprisionar. são fracos. têm medo dos tais enfrentamentos que nós, fora da ficção, também temos. o pobre do príncipe é solitário e vive o tédio provocado pelo sangue azul que lhe corre nas veias. a pobre da bailarina é solitária e deseja ser o cisne que não pensa e nem sabe que tem sangue, quanto mais vermelho! cor da encarnação, da vida com suas paixões que dão impulso cósmico para o necessário viver com todas as implicações que esse verbo exige. isso sem falar no também pobre do feiticeiro que amedronta com sua rapinice e dança negramente nas sombras de nina no palco. cara, to achando que todos são pobres, só agora que reparei nessa minha fala. (assunto pra outra hora). o fato é que todos os personagens precisam uns dos outros para se sustentarem, buscando o tal sentido da vida.

assistindo ao filme ao som de tchaikovsky vamos vendo as nossas próprias prisões (escolhidas por nós rsrsrs). e eu lá com minhas amigas vivendo tudo aquilo. e começando a dar tratos à bola, essa velha mania de ficar especulando e comparando...

sim, w., voltando aqui ao assunto do sofrimento da bailarina que tanto me impressionou - perfeita a atriz! – por causa da automutilação. menino, o que leva uma pessoa a se punir dessa forma?  conheço uma assim. se coça tanto, se fere, se sangra e depois come os cascões da ferida. é verdade. conheço! talvez tenha sido por isso que  me chamou tanto a atenção no filme: o comportamento destrutivo da bailarina. ela não comia os cascões, mas gostava de ver o sangue verter. no caso da nina do filme a gente pode até pensar no desespero de ter que se  superar, afinal ela precisava – por obrigação a que se impôs –  ser o que a pobre da mãe não pôde ser e a “torturava”.  a solidão da alma humana é um problema espiritual, eu acho. talvez isso justifique os maus tratos infligidos a si mesmo. essa alma que projeta sobre o corpo físico as tais máculas perispirituais adquiridas em outros tempos ou adquiridas por energias deletérias às quais estamos expostos nesta vida, assim dizem os entendidos nesses assuntos.

bom, mas o filme vai caminhando... e eu nele, mas continuando a sentir a dor da nina.

outros entendidos dizem que a automutilação acontece quando o sujeito vive numa extrema angústia, num tormento psíquico. estou quase virando “tudóloga”, aquela que se mete a entender de tudo sem saber rsrsrs. então já que nina era brutalizada pela (o)pressão da mãe, a moça fazia sangrar a pele. Há um momento em que ela arranca o pedaço da pele como querendo livrar-se do invólucro do corpo, da matéria, com se esta de nada valesse. ela queria arrancar a capa (pele) pra libertar-se do corpo denso e dançar com a fluidez e leveza do espírito. negócio difícil de entender. mas essa libertação é pela dor emocional. e ela só seria libertada pelo amor do príncipe (do lago dos cisnes) que louco de paixão, morre de amor antes de libertar a amada cisne-mulher.

na apresentação final do espetáculo nina consegue incorporar o cisne negro - a dualidade nossa de cada dia -que representa a sensualidade aprisionada por toda a raiva contida. o lado bom e o ruim. ela solta as amarras (pra não dizer as frangas) e dança entre ovações da platéia delirante ao ver que a bailarina consegue atingir a perfeição dos movimentos, a incorporação legítima de tudo o que ela acreditava precisar. dança, dança, dança e voa com a paixão no seu mais puro significado. dança até expor as vísceras sangrantes e raivosas. finalmente está apaziguada.

Quer saber de uma coisa, w.? acho que vc deve escrever um poema sobre os cisnes... de qualquer cor.

Beijocas

n.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

E-MAIL SOBRE A CABANA

w, amado,

Pode um p.s. no começo? vá lá: mack não era santo, mas era bom na essência, assim como vc.

nós já conversamos uma vez sobre este livro. a tal cabana. ele é comum, bobo (no bom sentido pra mim) e por isso muitos críticos literários não dão valor, mas o que importa a crítica se desde que foi lançado o público não para de comprar e ler? creio que a crítica é o povo. ele é quem dá a importância ao livro. o livro só é bom se penetra na alma do leitor de alguma forma. por isso todo livro é bom porque somos diversos e ninguém é obrigado a gostar. aliás, o escritor daniel pennac fala dos direitos do leitor: o direito de ler, de não ler, de gostar, de não gostar, de começar a ler pelo fim, pelo meio, saltar páginas, etc e até o direito de não ler. acho isso de uma democracia incrível! no entanto, se for preciso dizer por que gostou ou não, há que se ter uma justificativa. no seu caso não precisa justificar nada porque não está na academia, não vai defender tese e nem é do seu interesse fazer com que alguém leia algo somente porque vc gostou.

quando eu dava aula numa faculdade de comunicação, lá pelos anos 2000, meus alunos falavam sobre o filme matrix. metade amava loucamente. metade odiava loucamente. aquilo me intrigou, inclusive colegas meus de trabalho e amigos também se comportavam do mesmo jeito que os alunos. em geral diziam que não se podia entender nada sobre o filme porque nunca se sabia onde estava o real e o imaginário. outros diziam que a beleza estava justamente nessa virtualidade-dualidade confusa, etc, etc, etc. fui assistir ao filme. ponto. saí do cinema apaixonada com os símbolos que eram as pistas ou pontes que ligavam realidade e a ficção. A travessia era mais ou menos fácil. descobri que mesmo os alunos que se apaixonaram por matrix, muitos não tinham lido alice no país das maravilhas (e do espelho) e nunca tinha sabido dos famosos diálogos entre alice e o gato risonho. muitos só sabiam do mágico de oz por causa dos desenhos animados da tv. outros sabiam do gênesis da bíblia por ouvir os dirigentes espirituais falarem. haviam decorado sem compreender nada (os horizontes de expectativa eram curtos). o mito da caverna? o que é isso? claro que quem fez o filme leu essas coisas citadas e muito mais. outros alunos haviam lido e não conseguiram juntar os elos. fazer as associações. outros não viram nada além do que homens lutando no ar... houve gente que só gostou por causa disso. tudo vale pra mim.

mas, pra esta criatura que lhe escreve muito e muitas linhas - rsrsrs - só pra falar uma bobagem, o filme bom mesmo foi blade runner o caçador de andróides. vc viu? isso é outro caso. 



(parênteses)... conheço intelectuais que não leriam a cabana porque só acham bom ler os filósofos em alemão – de preferência. literatura "menor", dizem. se é q existe isso.voltando pra cabana... mack é um sujeito rabugento, cheio de tristezas guardadas, raivas se movendo dentro do próprio pântano interior e que lhe consomem a alma o impedindo de ser alegre e fazer as pessoas alegres. é um sujeito digno, reto, justo, extremamente amoroso como pai, leal como amigo, responsável, decente... tudo de bom (pra quem não vive com ele kkkkkkkk). mack é conformado com a sua desgraça pessoal e não verbaliza isso... é “rúim” abrir a alma pros outros!!!

bom, então uma situação grave faz com que mack retorne à cabana, lugar da sua dor. a maior dor que uma pessoa pode ter. e lá acontece o inusitado encontro com papai, sarayu e outro companheiro, que também consegue ser os dois primeiros rsrsrsr. loucura total! um p.s. antes do fim: o livro não é necessariamente religioso e talvez nem tenha sido essa a intenção do autor (a intenção de quem escreve é o que menos importa em alguns casos.  vc que escreve sabe disso). no entanto há algo de espiritual, numa visão de deus pouco explorada ou pensada. mas há um conteúdo aparentemente (em literatura quase tudo é aparentemente) religioso-espiritual-universal-filosófico-psicológico-existencial... que é impossível a gente não se identificar em algum momento com o personagem. mack termina sendo uma espécie do nosso alter-ego, uma projeção nossa em forma de papel e letra... e tudo passa a ser real.

amadinho, acho linda essa nossa relação (o filme "nunca te vi sempre te amei).
 
a partir da página 70 do livro vc entrará num outro tempo e outro espaço. o lugar do inverossímel, mas muitíssimo atraente. o lugar do espelho, do não-lugar (ACABEI DE TER UMA IDEIA - daqui apouco te falo). então muita coisa acontece tanto lá quanto cá e a gente vira personagem. todos somos mack com as nossas dúvidas, conflitos, medos, raivas, dívidas(?) expectativas... ficamos desnudos tentando encobrir as vergonhas kkk mas não há como encobri-las, não há como se esconder mais. as máscaras que lutamos em manter, caem... viramos universais, visíveis e unos. É inevitável! já devo concluir? ta cansado de ler esse argumento pra fazer vc entrar na cabana? agüenta? como não ouvi sua resposta, vou continuar só mais um tiquinho. então amado, pelo que conheço do poeta mais doce da net, vc tem medo de entrar na cabana por isso que parou exatamente naquele lugar. ou então vc é o tipo de pessoa que não come o gostoso pra ficar só olhando. mas o olho também gasta e olhar pode ser uma forma de comer. rsrsrs. olhe, w, se eu fosse vc, leria o livro só pra derrubar meus argumentos. só pra dizer na minha cara que não gostou. aí eu ficarei satisfeita e lhe deixaria quieto. .
 
bom, veja a ideia que tive acima: o blog não é uma espécie de diário? então vamos inventar um diário a dois. será que já inventaram isso? ando louca pra ser original em alguma coisa. trocaremos ideias literárias “abobrínicas” – ou ablogbrínicas? - dentro de um blog, em forma de cartas assim como fazemos há tantos anos. nos escreveremos e se não tivermos platéia, a gente mesmo se lê e fica tudo bom do mesmo jeito.
quem sabe alguma escola não nos aproveita pra ajudar a despertar nos estudantes o gosto pra ler e escrever? nesse blog a gente pode dizer do que gostou, do que não, comentar uma imagem, um poema, trivialidades... um negócio descompromissado, sem regularidade de publicação. gosto dos blogs organizados, com publicações semanais, mensais... mas não consigo ser disciplinada a esse ponto. gosto de ser um tanto livre. Mas comprometida, razoavelmente, com o idioma. nada também de neuras gramaticais 
topas?
pensemos?

beijocas. (dessa vez eu ultrapassei os limites de tanto escrever. tadinho de vc, amado!)


****
n.

Amada,

então...
gosto quando falas, falas, e vais virando fadas, desvirando fadas, e logo estamos em um mundo encantado.
tuas palavras têm um jeito que me cativa...
me imagino diante de uma naja, enquanto as leio, vão me cativando, cativando, e lá estou eu de novo pequeno príncipe diante da sabedoria raposina.

o tal mack é mesmo isso tudo que falaste, um cara fascinante?
mas estou longe de me parecer com ele. juro.
já te disse uma vez, e te direi quantas vezes necessárias forem:
- Não sabes a quantidade de pecados que sou capaz de cometer por metro quadrado.

gostei da idéia do blog.
vou de novo e prepotentemente dar uma idéia para o nome dele:

COISAS
DOIDAS

vamos lá.
vamos lá.

prometo, logo que puder terminar de ler a Cabana.
prometo.
aliás devo isso a duas pessoas muito especiais.

prometo ainda que verei o filme.

venha sempre.
e venha carregada de palavras.

se cuida.
bjos.w

p.s. gosto de iniciar as frases, quando não sou obrigado a obedecer regras gramaticais, com letras minúsculas.
identifico-me  mais com elas do que com as maiúsculas.